sábado, 21 de março de 2015

Alimento para o senso comum? Da academia à mídia

Na aula de ontem à noite (Pesquisa em Saúde e Bioestatística), houve uma pequena discussão acerca de uma pesquisa amplamente divulgada pela mídia nesta semana. Chamou-me a atenção porque no mestrado estudei amamentação e os achados de Victora e colegas foram fundamentais para as diretrizes de amamentação exclusiva recomendadas pela OMS. Além disso, a coorte de Pelotas é muito conhecida no meio acadêmico. Procurei reportagens e, no Portal Periódicos Capes, pude acessar o periódico The Lancet Global Health, no qual foi publicado o artigo. Menciono que o artigo foi "the editor choice" neste fascículo, estampando a capa da revista, e estando em destaque na página inicial. 



O link para acessar o paper na íntegra é:
http://www.thelancet.com/pdfs/journals/langlo/PIIS2214-109X%2815%2970002-1.pdf
 Melhor ainda, nosso colega Vanderlei, que disparou a discussão, informou que uma matéria sobre o estudo está no site do Ministério da Saúde, um dos financiadores da pesquisa, onde é também é possível acessar o artigo:   
 http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/17110-pesquisa-inedita-revela-que-amamentacao-pode-aumentar-inteligencia



Fiquei motivada a ler reportagens sobre o artigo e o artigo em si, e então escrever este post. Minha principal inquietação (na aula de hoje discutimos sobre produção de conhecimento e senso comum, entre outros) foi: poderia traçar um percurso entre os achados da pesquisa, a produção do artigo, a divulgação no periódico científico, a divulgação deste pela mídia, divulgação governamental e compreensão das pessoas em geral? Como são os recortes e interpretações de cada um? Qual é a chamada para o leitor se interessar pela matéria? Da academia ao senso comum... (Escrevi esta frase antes de ler as reportagens, claramente com preconceitos. Ao final do post, retomarei esta sentença).

Sites de notícias do RS
Correio do Povo
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/551697/Estudo-realizado-em-Pelotas-mostra-relacao-entre-amamentacao-prolongada-e-inteligencia





"Benefício é maior para as crianças que tiveram um período mais longo de amamentação"

O jornal informa dados corretos, provavelmente lidos da análise do artigo por outro pesquisador, também publicada na Lancet. Ao final da reportagem, contudo, esquece uma palavra na frase, a qual distorce a recomendação da OMS:
"A OMS recomenda a amamentação para crianças até os seis meses. A organização reconhece que menos de 40% dos bebês, em todo o mundo, passam por esse período de aleitamento materno".
Não é isso. A OMS recomenda a amamentação EXCLUSIVA para crianças até os seis meses e não exclusiva até os dois anos ou mais. Alguém mais atento, ao ler a reportagem, poderia se confundir, até pensar que o estudo vai contra a recomendação do órgão (benefício é maior para crianças que tiveram um período mais longo).

Zero Hora
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2015/03/criancas-que-mamam-por-mais-tempo-tem-renda-maior-e-sao-mais-inteligentes-4721022.html 
 


É o jornal que tenho mais contato ao longo da vida (eu sobrevivi!), então não é surpresa a frase de destaque:
"O leite materno pode ser benéfico também para a vida financeira do filho".
Com relação à forma como são feitos os recortes, chama a atenção que este meio optou por buscar as informações em outro jornal (Folha de SP) e ainda comentou que os "os resultados deveriam servir como base para o Governo Federal: - Investir na amamentação é investir no capital humano da próxima geração" - opa! #ficaadica da ZH para o governo federal!! (vou reproduzir aqui o que sempre ouvi na UFRGS: LEIA O ORIGINAL!!).

Outros sites de notícias:
BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150318_amamentacao_lk
 


O site faz um apanhado mais amplo sobre os benefícios da amamentação. Resume com as principais informações e limitações o estudo, além de enfatizar a importância da amamentação exclusiva e até as alternativas quando a mesma não é possível.

Folha de São Paulo
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/03/1604352-criancas-que-mamam-por-mais-tempo-tem-renda-maior-quando-adultos.shtml 


Embora o destaque seja para os benefícios financeiros, a Folha faz uma descrição precisa da pesquisa e dos benefícios da amamentação, contudo, também recomenda que o governo use resultados do estudo em suas políticas, sem mencionar que o mesmo participou de seu financiamento.
 
Estadão
http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,tempo-de-amamentacao-afeta-renda-e-escolaridade,1652880 


Descreve a pesquisa, aponta os benefícios da amamentação. Junto com o site da BBC, pareceu-me a melhor fonte de informação sobre o artigo.

Como eu resumiria o estudo?

Em 1982, os pais dos neonatos nascidos na cidade de Pelotas foram convidados a participarem de um estudo longitudinal, sendo os bebês os sujeitos da pesquisa. De tempos em tempos, eram verificadas variáveis sócio-demográficas e outros fatores, como desempenho escolar, hábitos alimentares, indicadores de saúde, entre outros. Quando estavam com 30 anos, aproximadamente, foram contatadas mais uma vez e avaliadas para diversos fatores, tais como escolaridade, inteligência e renda própria. Os autores concluiram que, independentemente de fatores que as caracterizavam ao nascimento (ex. tipo de parto, renda familiar, tabagismo e escolaridade maternos, entre outros), aqueles que foram amamentados no peito – de forma exclusiva ou não – por mais que um mês tiveram melhores escores em teste de avaliação de inteligência, anos de estudo e renda aos 30 anos de idade. Um dos destaques deste estudo foi ter estabelecido benefícios a longo prazo na prática da amamentação. Entre as explicações para os benefícios do leite materno, os autores indicam sua constituição bioquímica e a importância da interaçao envolvida no ato de amamentar para o desenvolvimento global do indivíduo.

Então?
Em geral, os sites de notícias informaram o principal: amamentar traz vários benefícios aos bebês os quais se refletem na vida adulta. Contudo, a ideia geral e os destaques que foram feitos apenas reforçam o que se sabe cotidianamente, e nada acrescenta ao senso comum: ah tah, eu já sabia. Não precisam fazer um estudo para descobrir algo que eu já sei. Na minha sentença da academia ao senso comum vi que é possível trazer informações relevantes para os leitores da mídia de maior abrangência, em especial nas matérias da BBC e do Estadão que enfatizam, além dos benefícios da amamentação exclusiva em várias etapas do desenvolvimento, também a importância de outros fatores da amamentação que não só o aspecto bioquímico.

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