No dia 08/04/2015 ocorreu nossa segunda visita ao
campo de prática. Foi a vez de conhecermos o Hospital de Pronto Socorro
de Porto Alegre. Vejo a velha fachada do HPS, encoberta com um tapume de
obra, praticamente todos os dias dos últimos
15 anos. Nunca simpatizei com o HPS, tanto olhando de fora, quanto nas
poucas vezes que estive lá – 3 vezes com familiares (duas fraturas e um
acidente de trânsito) e uma visita técnica à central de controle do
SAMU, que funcionava lá. Sempre considerei aquele
um local pesado, achava-o mal-tratado, desorganizado, confuso.
Não recebi bem o anúncio desta visita pela Profª Tatiana. Para mim,
voltar a esta instituição sempre é uma mistura de sentimentos... sempre
acho que será pior do que é.
Em geral, os pronto-socorros, são locais de
atendimento de situações inesperadas, que são resultado de nossas
imprudências, de nossa violência - contra os outros, contra nós mesmos,
contra o nosso meio. São locais onde o desrespeito às
normas de trânsito, a desatenção, o descuido se materializam em
fraturas, cortes, queimaduras, e que causam dores, arrependimentos,
desesperos, sustos... Foi com essa ideia que ingressei no local.
Antes de iniciarmos a visita, fomos à biblioteca,
no prédio mais novo, onde a enfermeira Augusta, o fisioterapeuta Eder e o
engenheiro Álvaro nos receberam. Lá, Augusta nos contou do trabalho
cotidiano, esclareceu dúvidas, contou experiências,
falou de mudanças. O engenheiro nos explicou a complexidade da obra de
recuperação plena da área assistencial, da finalização do processo de
desapropriação das casas da José Bonifácio, das perspectivas. Nesta
conversa, comecei a mudar um pouco minha percepção
sobre o local, ficando mais otimista. Algumas notícias ajudaram, por
exemplo, que há uns dois anos se tem esforços para que o HPS se volte
para sua missão institucional, que é atender trauma, afinal, este é um
local de resposta rápida a quem se feriu, se acidentou
inesperadamente... Chega de atender infarto, parto, dor de barriga. Há
outros espaços para isto.
Após a conversa, começamos uma breve visita ao
local. De forma estranha, mesmo tendo percorrido corredores e UTIs quase
que diariamente por grandes períodos, naquele momento tudo parecia
novo. Por mais que tivesse familiaridade com o ambiente
hospitalar, as situações extremas sempre me despertam apreensão. Neste
contexto, o momento mais intenso da vida de alguns (usuários) é o
cotidiano de outros (profissionais). Causa-me desconforto ver alguém
muito machucado, na tênue fronteira entre a vida e
a morte. É muito angustiante ver uma criança vítima de descuido, de
negligência ou de crueldade. Materializa-se em nossa frente a realidade
de que a vida pode mudar em muito pouco tempo: a pessoa pode sair feliz
para uma festa e acabar sua noite com um projétil
na cabeça, outro, sair para trabalhar e sofrer um trauma
troncoencefálico depois de um atropelamento, ou uma criança sair
brincar e ser atacada com um cachorro. É a fragilidade de nosso corpo, a
susceptibilidade aos fatos inesperados do dia-a-dia. Passamos
pelas 3 UTIs – 2 de adultos e 1 pediátrica, pelo setor de queimados,
pela Sala de Recuperação, pelo novo bloco cirúrgico, pela sala de
espera. E por muitas obras. Pensei em um paralelo ente o estado do
hospital e de seus usuários. Há partes inteiras, novas,
perfeitas, outras, quebradas, condenadas, desfiguradas. É interessante
como a pessoa pode começar seu tratamento por uma UTI tão antiga, ser
operada em um bloco totalmente novo, com equipamentos de ponta e sair em
meio aos tapumes da entrada. Também lembro
algo que sempre é interessante no Brasil: quando falamos em alta
tecnologia em saúde, as capitais de sul e sudeste, e algumas do nordeste
e do centro oeste do Brasil estão altamente estruturadas. A dita
tecnologia dura é similar a de países desenvolvidos.
Além da mudança de percepção, também soube que
atualmente o acolhimento no HPS ocorre usando-se o Protocolo de
Manchester, a saber, os pacientes são avaliados com relação aos riscos
de sua situação e classificados por cores, conforme figuras
a seguir.
É importantíssimo termos um espaço destes bem
cuidado, que cumpra sua missão e sua função. que bom que outras pessoas,
que tem uma ideia tão negativa quanto eu tinha até a última
quarta-feira à noite, possam ter mais informações reais sobre
a situação atual do HPS, sobre os atendimentos prestados e as
perspectivas para um futuro próximo. Precisamos de um local destes para
atender nossas urgências e emergências. Quem não se lembra daquelas
SAMUs no parque da Redenção, aguardando os helicópteros
chegarem de Santa Maria no fatídico dia 27/01/2013 e transportarem as
vítimas das irresponsabilidades humanas para serem acolhidas com o
melhor atendimento possível no HPS?













