sexta-feira, 10 de abril de 2015


No dia 08/04/2015 ocorreu nossa segunda visita ao campo de prática. Foi a vez de conhecermos o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre. Vejo a velha fachada do HPS, encoberta com um tapume de obra, praticamente todos os dias dos últimos 15 anos. Nunca simpatizei com o HPS, tanto olhando de fora, quanto nas poucas vezes que estive lá – 3 vezes com familiares (duas fraturas e um acidente de trânsito) e uma visita técnica à central de controle do SAMU, que funcionava lá. Sempre considerei aquele um local pesado, achava-o mal-tratado, desorganizado, confuso. Não recebi bem o anúncio desta visita pela Profª Tatiana. Para mim, voltar a esta instituição sempre é uma mistura de sentimentos... sempre acho que será pior do que é.
Em geral, os pronto-socorros, são locais de atendimento de situações inesperadas, que são resultado de nossas imprudências, de nossa violência - contra os outros, contra nós mesmos, contra o nosso meio. São locais onde o desrespeito às normas de trânsito, a desatenção, o descuido se materializam em fraturas, cortes, queimaduras, e que causam dores, arrependimentos, desesperos, sustos... Foi com essa ideia que ingressei no local.
Antes de iniciarmos a visita, fomos à biblioteca, no prédio mais novo, onde a enfermeira Augusta, o fisioterapeuta Eder e o engenheiro Álvaro nos receberam. Lá, Augusta nos contou do trabalho cotidiano, esclareceu dúvidas, contou experiências, falou de mudanças. O engenheiro nos explicou a complexidade da obra de recuperação plena da área assistencial,  da finalização do processo de desapropriação das casas da José Bonifácio, das perspectivas. Nesta conversa, comecei a mudar um pouco minha percepção sobre o local, ficando mais otimista. Algumas notícias ajudaram, por exemplo, que há uns dois anos se tem esforços para que o HPS se volte para sua missão institucional, que é atender trauma, afinal, este é um local de resposta rápida a quem se feriu, se acidentou inesperadamente... Chega de atender infarto, parto, dor de barriga. Há outros espaços para isto.
Após a conversa, começamos uma breve visita ao local. De forma estranha, mesmo tendo percorrido corredores e UTIs quase que diariamente por grandes períodos, naquele momento tudo parecia novo. Por mais que tivesse familiaridade com o ambiente hospitalar, as situações extremas sempre me despertam apreensão. Neste contexto, o momento mais intenso da vida de alguns (usuários) é o cotidiano de outros (profissionais). Causa-me desconforto ver alguém muito machucado, na tênue fronteira entre a vida e a morte. É muito angustiante ver uma criança vítima de descuido, de negligência ou de crueldade. Materializa-se em nossa frente a realidade de que a vida pode mudar em muito pouco tempo: a pessoa pode sair feliz para uma festa e acabar sua noite com um projétil na cabeça, outro, sair para trabalhar e sofrer um trauma troncoencefálico depois de um atropelamento, ou uma criança sair  brincar e ser atacada com um cachorro. É a fragilidade de nosso corpo, a susceptibilidade aos fatos inesperados do dia-a-dia. Passamos pelas 3 UTIs – 2 de adultos e 1 pediátrica, pelo setor de queimados, pela Sala de Recuperação, pelo novo bloco cirúrgico, pela sala de espera. E por muitas obras. Pensei em um paralelo ente o estado do hospital e de seus usuários. Há partes inteiras, novas, perfeitas, outras, quebradas, condenadas, desfiguradas. É interessante como a pessoa pode começar seu tratamento por uma UTI tão antiga, ser operada em um bloco totalmente novo, com equipamentos de ponta e sair em meio aos tapumes da entrada. Também lembro algo que sempre é interessante no Brasil: quando falamos em alta tecnologia em saúde, as capitais de sul e sudeste, e algumas do nordeste e do centro oeste do Brasil estão altamente estruturadas. A dita tecnologia dura é similar a de países desenvolvidos.
Além da mudança de percepção, também soube que atualmente o acolhimento no HPS ocorre usando-se o Protocolo de Manchester, a saber, os pacientes são avaliados com relação aos riscos de sua situação e classificados por cores, conforme figuras a seguir.













É importantíssimo termos um espaço destes bem cuidado, que cumpra sua missão e sua função. que bom que outras pessoas, que tem uma ideia tão negativa quanto eu tinha até a última quarta-feira à noite, possam ter mais informações reais sobre a situação atual do HPS, sobre os atendimentos prestados e as perspectivas para um futuro próximo. Precisamos de um local destes para atender nossas urgências e emergências. Quem não se lembra daquelas SAMUs no parque da Redenção, aguardando os helicópteros chegarem de Santa Maria no fatídico dia 27/01/2013 e transportarem as vítimas das irresponsabilidades humanas para serem acolhidas com o melhor atendimento possível no HPS?

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