sábado, 28 de março de 2015

Hoje, sábado, fiz questão de superar a preguiça e aproveitei a oportunidade de participar da aula aberta do PPG Saúde Coletiva intitulada Mais Médicos e o Desenvolvimento das Redes de Atenção do SUS, com Felipe Proenço de Oliveira e Sandra Fagundes, com coordenação do Prof. Alcindo. Depois escrevo um post sobre o Mais Médicos. Quis escrever este antes simplesmente para registrar o quanto estou certa da escolha que fiz, o quanto eu realmente quero me dedicar a carreira de sanitarista. Penso que este evento marca de forma positiva a quarta semana nesta nova graduação. Ao escutar as discussões, as problemáticas eu só pensava: como isso faz sentido para mim! Como estas discussões são nítidas, é disso que quero participar, é com isso que quero trabalhar, agir, contibuir. Estou muito motivada com minhas constantes inquietações, com o que tenho lido, ouvido, discutido, debatido, aprendido. Após anos de incertezas e marasmos, sinto-me muito feliz e com muita energia: agora sei que estou no meu caminho! Agradeço ao apoio do Daniel, meu irmão, dos amigos próximos, professores, colegas que estão me acompanhando. Vamo que vamo!

quarta-feira, 25 de março de 2015

Inesperado mandato

Há anos atrás, quando Jean Willys, famoso a partir de uma das piores criações da televisão mundial – o Big Brother – foi eleito Deputado Federal, achei que seria mais uma (sub)celebridade marionete da alcateia. Porém, depois que comecei a ler seus textos no site da Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br), passei a gostar de suas discussões e deixei de lado meu preconceito sobre a origem de sua fama. Ontem, de forma corajosa e fundamentada, o deputado protocolou o Projeto de Lei 882/2015, o qual “Constitui objeto da presente Lei garantir os direitos fundamentais no âmbito da saúde sexual e dos direitos reprodutivos, regular as condições da interrupção voluntária da gravidez e estabelecer as correspondentes obrigações dos poderes públicos”. Recomendo o acesso ao projeto em sua versão integral (link emhttp://www.sul21.com.br/jornal/deputado-jean-wyllys-apresenta-projeto-para-legalizar-aborto/). A premissa do PL, segundo suas palavras na mesma matéria de Sul 21, é: “Educação sexual para decidir, anticoncepcionais para não abortar e aborto legal, seguro e gratuito para não morrer”.

Com relação ao aborto, que não é a única pauta do PL, impor a cultura e as crenças de uns sobre a vida dos outros, conforme discutiremos mais tarde na UPP de Humanidades com a Profª Tatiana, vai contra o respeito à cultura das pessoas. Para mim, faz muito sentido a justificativa do deputado no PL, afinal, estima-se que mais de 2 milhões de brasileiras se submetam todos os anos aos procedimentos existentes, o que é considerado um crime. Quando não há regulamentação, não se discute, aborta-se na clandestinidade, o sofrimento é da mulher que é passiva ao que está disponível, não há regras sanitárias, nem protocolos para procedimentos, entre outros problemas. A interrupção gestacional é apenas um dos temas do projeto, mas como certeza será o mais polêmico. A justificativa pela proibição e criminalização, como bem destaca Willys, é baseada em religiosidade, moralismos e hipocrisia. Provavelmente, o PL será rejeitado (ou engavetado), e Willys apedrejado, mas o tema volta à agenda, e quem sabe alguns baixem guarda em seu etnocentrismo.

domingo, 22 de março de 2015

Uns canadenses


Assistiremos ao filme canadense As Invasões Bárbaras na primeira parte da aula do dia 24/03/2015 do Prof. Alcindo (Políticas Públicas e Sistemas de Saúde).


Lembrei que este filme é uma continuação de O Declínio do Império Americano (1986), por isso o assisti hoje. 
Ao invés de continuação, um psicanalista, em uma análise sobre Invasões, propõe que se trata de "um outro momento da vida das mesmas pessoas" (Caso queira ler a análise completa que ele fez, sugiro acessar: http://www.sbprp.org.br/cinema/pop_invasoes.htm, mas aviso: ele conta o filme todo). 
Não sei qual será o norte da discussão posterior ao filme que emergirá em aula, contudo, além das relações humanas e da invasão, lembrei que um dos cenários do filme é o sistema de saúde do Canadá, ponto que motivou esta postagem. Antes de iniciar minhas buscas sobre o tema, a ideia rasa que eu tinha é que naquele país todo o sistema de saúde é público, não havendo sistemas público e privados concomitantes. Então, achei que seria uma oportunidade de aprender um pouco sobre a política de saúde canadense, busquei informações e fui montando este post. Diferente do que achava, há alguns tratamentos de saúde que são pagos individualmente (ex.: cirurgias estéticas, homecare, alguns tratamentos odontológico, hotelaria hospitalar diferenciada), mas a maior parte da assistência é igual para todos da mesma província (são 10). Assim como o SUS tem princípios norteadores (universalidade, integralidade e equidade), aquele sistema também tem, que são administração pública, integralidade, universalidade, portabilidade e acessibilidade.



A seguir, um pouco do que consegui conhecer numa breve busca online. As informações são basicamente de três fontes: site oficial da saúde canadense (http://www.hc-sc.gc.ca/hcs-sss/pubs/system-regime/2011-hcs-sss/index-eng.php#a13) e dois textos - Reflexão: A Saúde Pública no Brasil e no Canadá (Pires, 2014 http://www.redehumanizasus.net/85454-reflexao-a-saude-publica-no-brasil-e-no-canada ) e Por dentro dos sistemas universais (Dominguez, s/d http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/99/reportagens/por-dentro-dos-sistemas-universais).


Sistema de Saúde no Canadá

- 1984: Canada Health Act (legislação constitucional atual);
- regras gerais do governo federal, administração e prestação de serviços através das 10 províncias;

- sustentado em valores de solidariedade e equidade;
- tem apoio social e político, independentemente de partido;
- definição de áreas prioritárias;
- constantes ajustes;
- terceirização de profissionais liberais e instituições prestadoras de serviços;
- 10% do PIB;
- recursos de impostos e taxas;
- a saúde pública engloba serviços de saúde em geral e também saneamento, controle de infecções, educação em saúde;
- todo cidadão canadense tem direito ao mesmo sistema de saúde e tem um cartão que segura-lhe o acesso.


* Em primeiro contato, percebo que os fundamentos do Canada Health Act e do SUS possuem várias convergências. Contudo, embora aquele sistema tenha a configuração somente há 6 anos a mais que o nosso, seus primórdios remontam ao século XIX. Se é verdade que os valores de solidariedade e lealdade dos canadenses são nítidos em sua população, o que não se repete por aqui, talvez esteja aí um dos pilares fortes de seu desempenho tido como satisfatório. Um grande ponto de divergência é a existência de possibilidades diferentes de assistência no Brasil, pois aqui é possível acessar grande parte dos serviços públicos de saúde em locais de cobertura de plano de saúde ou pagamento individual. Até mesmo vacinas, em sua maioria, podem ser obtidas na rede particular. Uma das exceções são os transplantes de órgãos. Encerro por aqui, não comparando valorativamente os  dois sistemas, visto que nossas realidades sócio-econômicas são tão distintas.

sábado, 21 de março de 2015

Alimento para o senso comum? Da academia à mídia

Na aula de ontem à noite (Pesquisa em Saúde e Bioestatística), houve uma pequena discussão acerca de uma pesquisa amplamente divulgada pela mídia nesta semana. Chamou-me a atenção porque no mestrado estudei amamentação e os achados de Victora e colegas foram fundamentais para as diretrizes de amamentação exclusiva recomendadas pela OMS. Além disso, a coorte de Pelotas é muito conhecida no meio acadêmico. Procurei reportagens e, no Portal Periódicos Capes, pude acessar o periódico The Lancet Global Health, no qual foi publicado o artigo. Menciono que o artigo foi "the editor choice" neste fascículo, estampando a capa da revista, e estando em destaque na página inicial. 



O link para acessar o paper na íntegra é:
http://www.thelancet.com/pdfs/journals/langlo/PIIS2214-109X%2815%2970002-1.pdf
 Melhor ainda, nosso colega Vanderlei, que disparou a discussão, informou que uma matéria sobre o estudo está no site do Ministério da Saúde, um dos financiadores da pesquisa, onde é também é possível acessar o artigo:   
 http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/principal/agencia-saude/17110-pesquisa-inedita-revela-que-amamentacao-pode-aumentar-inteligencia



Fiquei motivada a ler reportagens sobre o artigo e o artigo em si, e então escrever este post. Minha principal inquietação (na aula de hoje discutimos sobre produção de conhecimento e senso comum, entre outros) foi: poderia traçar um percurso entre os achados da pesquisa, a produção do artigo, a divulgação no periódico científico, a divulgação deste pela mídia, divulgação governamental e compreensão das pessoas em geral? Como são os recortes e interpretações de cada um? Qual é a chamada para o leitor se interessar pela matéria? Da academia ao senso comum... (Escrevi esta frase antes de ler as reportagens, claramente com preconceitos. Ao final do post, retomarei esta sentença).

Sites de notícias do RS
Correio do Povo
http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/551697/Estudo-realizado-em-Pelotas-mostra-relacao-entre-amamentacao-prolongada-e-inteligencia





"Benefício é maior para as crianças que tiveram um período mais longo de amamentação"

O jornal informa dados corretos, provavelmente lidos da análise do artigo por outro pesquisador, também publicada na Lancet. Ao final da reportagem, contudo, esquece uma palavra na frase, a qual distorce a recomendação da OMS:
"A OMS recomenda a amamentação para crianças até os seis meses. A organização reconhece que menos de 40% dos bebês, em todo o mundo, passam por esse período de aleitamento materno".
Não é isso. A OMS recomenda a amamentação EXCLUSIVA para crianças até os seis meses e não exclusiva até os dois anos ou mais. Alguém mais atento, ao ler a reportagem, poderia se confundir, até pensar que o estudo vai contra a recomendação do órgão (benefício é maior para crianças que tiveram um período mais longo).

Zero Hora
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2015/03/criancas-que-mamam-por-mais-tempo-tem-renda-maior-e-sao-mais-inteligentes-4721022.html 
 


É o jornal que tenho mais contato ao longo da vida (eu sobrevivi!), então não é surpresa a frase de destaque:
"O leite materno pode ser benéfico também para a vida financeira do filho".
Com relação à forma como são feitos os recortes, chama a atenção que este meio optou por buscar as informações em outro jornal (Folha de SP) e ainda comentou que os "os resultados deveriam servir como base para o Governo Federal: - Investir na amamentação é investir no capital humano da próxima geração" - opa! #ficaadica da ZH para o governo federal!! (vou reproduzir aqui o que sempre ouvi na UFRGS: LEIA O ORIGINAL!!).

Outros sites de notícias:
BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150318_amamentacao_lk
 


O site faz um apanhado mais amplo sobre os benefícios da amamentação. Resume com as principais informações e limitações o estudo, além de enfatizar a importância da amamentação exclusiva e até as alternativas quando a mesma não é possível.

Folha de São Paulo
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/03/1604352-criancas-que-mamam-por-mais-tempo-tem-renda-maior-quando-adultos.shtml 


Embora o destaque seja para os benefícios financeiros, a Folha faz uma descrição precisa da pesquisa e dos benefícios da amamentação, contudo, também recomenda que o governo use resultados do estudo em suas políticas, sem mencionar que o mesmo participou de seu financiamento.
 
Estadão
http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,tempo-de-amamentacao-afeta-renda-e-escolaridade,1652880 


Descreve a pesquisa, aponta os benefícios da amamentação. Junto com o site da BBC, pareceu-me a melhor fonte de informação sobre o artigo.

Como eu resumiria o estudo?

Em 1982, os pais dos neonatos nascidos na cidade de Pelotas foram convidados a participarem de um estudo longitudinal, sendo os bebês os sujeitos da pesquisa. De tempos em tempos, eram verificadas variáveis sócio-demográficas e outros fatores, como desempenho escolar, hábitos alimentares, indicadores de saúde, entre outros. Quando estavam com 30 anos, aproximadamente, foram contatadas mais uma vez e avaliadas para diversos fatores, tais como escolaridade, inteligência e renda própria. Os autores concluiram que, independentemente de fatores que as caracterizavam ao nascimento (ex. tipo de parto, renda familiar, tabagismo e escolaridade maternos, entre outros), aqueles que foram amamentados no peito – de forma exclusiva ou não – por mais que um mês tiveram melhores escores em teste de avaliação de inteligência, anos de estudo e renda aos 30 anos de idade. Um dos destaques deste estudo foi ter estabelecido benefícios a longo prazo na prática da amamentação. Entre as explicações para os benefícios do leite materno, os autores indicam sua constituição bioquímica e a importância da interaçao envolvida no ato de amamentar para o desenvolvimento global do indivíduo.

Então?
Em geral, os sites de notícias informaram o principal: amamentar traz vários benefícios aos bebês os quais se refletem na vida adulta. Contudo, a ideia geral e os destaques que foram feitos apenas reforçam o que se sabe cotidianamente, e nada acrescenta ao senso comum: ah tah, eu já sabia. Não precisam fazer um estudo para descobrir algo que eu já sei. Na minha sentença da academia ao senso comum vi que é possível trazer informações relevantes para os leitores da mídia de maior abrangência, em especial nas matérias da BBC e do Estadão que enfatizam, além dos benefícios da amamentação exclusiva em várias etapas do desenvolvimento, também a importância de outros fatores da amamentação que não só o aspecto bioquímico.